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    terça-feira, 20 de dezembro de 2016

    Aborto mata uma mulher a cada dois dias no Brasil e inspira filme premiado


    No Brasil, assim como em muitos outros países, o aborto é considerado crime. A mulher que o pratica pode ser punida de um a três anos de prisão. Isso não significa que o ato não ocorra. Pelo contrário, de acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), mais de um milhão de mulheres abortam todos os anos no país.

    A OMS acredita que, dos 42 milhões de abortos feitos anualmente no mundo, 20 milhões são feitos de forma clandestina e em condições pouco seguras, o que provoca aproximadamente 47 mil mortes por ano devido a hemorragias, danos uterinos e infecções causadas pela indução do aborto. No Brasil, uma mulher morre a cada dois dias vítima de complicações causadas pelos procedimentos malfeitos, fora as 200 mil mulheres que recorrem ao Sistema Único de Saúde (SUS) para tratar sequelas.

    Esse assunto delicado e polêmico é retratado no filme “Embaraço”, lançado este ano. Apontado pela crítica como o melhor filme do diretor Fernando Rick, o curta-metragem de 20 minutos conta o caso da jovem Angélica, vivida pela atriz Amanda Pereira, que se vê grávida após uma noite de sexo casual. Descontente com a gravidez indesejada, ela realiza diversos procedimentos abortivos como a ingestão da pílula Cytotec, remédio proibido no Brasil, até um cabide roupas transformado em gancho para tentar extrair o feto, um dos métodos mais perigoso para a mulher. “O filme tem tanto impacto por ser feito no Brasil, onde o aborto é proibido e amplamente discutido. Mostramos de forma crua o desespero e a solidão que muitas mulheres enfrentam diariamente. O convite, para um desafio como esse, foi um grande presente e eu coloquei toda a minha energia nele. Ao final das gravações tive dores em todo o corpo e um crescimento profissional sem comparação”, conta Amanda sobre a película.

    Ao longo do premiado filme minimalista ? com uma única atriz, em um único ambiente -, é possível perceber a transformação da personagem e cenário, destacando a maquiagem premiada de Dri Chepezan e direção de arte impecável de Dani Bevervanso. A quase ausência de falas é preenchidas pela dramaticidade. Essa simplicidade incomoda porque beira o realismo. Em algumas apresentações há relatos de pessoas passando mal ou precisando deixar a sala de exibição pelo desconforto. “Acho importante discutir temas relevantes nas obras. E esse projeto só foi possível porque tive apoio de pessoas que são referências no audiovisual. Para o papel eu precisava de uma atriz talentosa e dedicada que segurasse 20 minutos de cena com poucas falas. E fiquei impressionado com a disciplina da Amanda. Com a preparação do Michael Dubret e Alethea Miranda, ela teve material e exercícios para praticar durante toda filmagem. Então toda cena era rodada no primeiro take, a gente só repetia para ajustar detalhes técnicos e novamente a cena era de prima”, explica o diretor Fernando Rick

    O curta-metragem, que se passa todo dentro de um quarto, rendeu à atriz Amanda Pereira o prêmio de melhor atuação geral pelo Morce-GO ? Goiás Horror Festival e a indicação de melhor atriz pelo Festival Internacional de Cinema Independente (Festicine). O filme foi indicado para o Festival de Cinema de Bogotá, principal festival da Colômbia, o Festival de Cinema e Artes de Expressão Ibérica (NAU), de Portugal, o Lakino, em Berlim, o Festival Internacional de Cinema Fantástico do Rio de Janeiro, o Festival Cultural Mondo Estronho ? 3ª edição, em Curitiba, a Mostra Competitiva de Curtas do Fantaspoa 2016, entre outros.

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