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    quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

    O POLVO COZIDO JAMAIS SERÁ COMIDO!

    Renan Calheiros será candidato no lugar de Ferreira Gullar para ter direito à imortalidade
    No domingo o povo brasileiro foi para a rua. Aliás, o povo brasileiro já foi pra rua há muito tempo. Com esse desemprego amplo, geral e irrestrito, está difícil até para conseguir uma vaga de Papai Noel de loja. Mesmo porque as lojas não estão contratando Papais Noéis para trabalhar no período natalino. Só uns veadinhos estão arrumando vaga, mesmo assim por causa da política de cotas, que obriga a contratação de cervídeos homoafetivos corniformes senão levam multa por discriminação.
    Enquanto jornalista investigativo desempregado, sem nada para fazer nem comer no domingo, só me resta seguir as manifestações populares recolhendo as latas de cerveja e refrigerante e algumas palavras de ordem que vão ficando pelo caminho da passeata. As latas vendo a quilo para reciclagem e as palavras reutilizo nos meus artigos de segunda mão. Já disse que estou mais duro que um coco. Não tenho dinheiro para comprar papel, o que dirá para pagar as letras que estão pela hora da morte.
    Por isso mesmo que morreu o meu amigo, o poeta Ferreira Gullar, maranhense porém honesto. Gullar era imortal da Academia, mas em caso de falecimento a imortalidade não adianta nada. Estivemos juntos no exílio perseguidos, ele pela Ditadura e eu pela Receita Federal.
    Ajudei o Ferreira a escrever o seu Opus Magnum, o clássico Poema Sujo. Ele fez a poesia enquanto eu me encarregava da sujeira. É que Ferreira Gullar e eu dividíamos um conjugado em Santiago do Chile com 35 exilados de diversas nacionalidades quando veio o golpe do Pinochet. Naquela confusão não percebi que o Gullar escrevia o seu longuíssimo poema em folhas e mais folhas de papel sulfite que eu, inadvertidamente, utilizei para minha higiene íntima, pessoal e intransferível numa crise de diarreia. Sem tempo para escrever tudo de novo, Ferreira Gullar preferiu incorporar os meus rabiscos à obra. Culto, inteligente, sensível e sedutor, Ferreira Gullar sempre fez sucesso com as mulheres, inclusive foi eleito símbolo sexual na Etiópia. Ferreira Gullar foi antes de tudo um gato.
    Agamenon Mendes Pedreira é jornalista de rua.

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